Sabem como é, minhas amigas: uma gaja fica manca de repente, passa a mexer-se muito menos e subitamente apanha um susto ao olhar para a balança. Sim, é que basta olhar para mim para se perceber que nestes últimos meses atingi uma volumetria corporal nunca antes alcançada! Para além disso, a bem da recuperação do meu pé, há que o exercitar, tal como manda o fisioterapeuta. Pensei eu então: por que não juntar o útil ao útil (sim, o agradável nunca é para aqui chamado) e retomar um hobby há muito esquecido? Sendo assim, para perder calorias e mexer o pezinho doente, esta gaja decidiu ontem ir dar uma volta de bicicleta.
Como sou oriunda da cidade das bugas, às vezes esqueço-me de que o Porto está longe de ser um paraíso para os ciclistas. Para além disso, em Aveiro basta pedalar uns meros dez minutos para estarmos longe do centro da cidade e a respirar ar puro tendo um esteiro da ria como cenário (ai das meninas que se atrevam a falar mal da qualidade atmosférica de Aveiro, digo-vos já que são previsíveis e que não têm razão nenhuma!)
Para onde é que se vai andar de bicicleta no Porto, pensei eu, se não quero respirar fumo de escape? Para o parque da cidade, claro está. E assim começou a minha aventura.
Comecei por deslizar pela Rua de Nossa Senhora de Fátima abaixo e por descobrir que, afinal, os travões não estavam a funcionar tão bem como eu pensava e que, se queria acabar a jornada sem lesionar mais nenhuma parte do corpo, tinha que moderar a velocidade. A meio da avenida da Boavista, depois de aguentar estoicamente os buracos no chão e o trânsito que me fazia circular a uma velocidade superior à média dos restantes veículos, vi-me rodeada, ao parar num semáforo, por um enxame de scooters dirigidas por aquilo a que eu chamo gunobetos. Um gunobeto é aquele tipo de gajo que anda de cavas, calças curtas e boné, utiliza palavras como "desadesiva" com sotaque do Porto quando quer mandar alguém embora e que gosta de se reunir ruidosamente com os seus semelhantes nas esquinas de pacatos bairros residenciais ou estações de serviço. Estes gunobetos pararam mesmo ao lado da gaja, todos a acelerar, a produzir monóxido de carbono em excesso, a apitar e a fazer comentários jocosos e desagradáveis à gaja em cima da bicicleta. Mau, pensei eu, vou mas é pelo passeio! O pior é que andar de bicicleta no passeio é proibido, e com alguma razão... Depois de andar a fazer gincanas pelo meio das paragens de autocarro, postes de iluminação e transeuntes e de ter feito mais do que uma tangente aos carros estacionados, cheguei finalmente ao meu destino, pensando que a aventura estava terminada e que agora iria circular pacificamente no meio da natureza...
Pois, só que me esqueci de que os portuenses só conhecem dois sítios para onde ir passear: o shopping e o parque da cidade. Como estava um solinho agradável e os saldos já acabaram, adivinhem onde é que foi toda a gente... Em vez de um passeio a velocidade de cruzeiro, sem grandes interrupções, tive de passar o tempo todo a tentar não atropelar a avó enquanto me desviava da prima que por sua vez tentava desviar o cão do senhor que vinha a correr em sentido contrário que por sua vez saltava por cima da bola que a criancinha em cima do triciclo tinha lançado para o irmão que estava dentro do carrinho de bebé. Acreditem, minhas amigas, nem no recanto mais escuro do parque uma gaja podia andar à vontade. O passeio no parque da cidade acabou por ser mais um teste à paciência e aos travões da bicicleta do que à resistência dos músculos pouco exercitados... Após duas voltas, estava pronta para regressar a casa. O pior é que no regresso a Avenida da Boavista é a subir. Dado que o meu espírito de sacrifício já era nulo por esta altura, desmontei e levei a bicicleta a pé durante grande parte do percurso.
Estafada e com os músculos doridos, cheguei a casa e comi uma maçã. "Ai que saudável que eu sou", pensei enquanto acendia um merecido cigarro.